segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Os Electras da VARIG!

          O que dizer da aeronave que melhor representa a VARIG? O que posso dizer é que o Electra tinha jeitão gordo, nariz de palhaço e para voar tocava uma musica com cada uma de suas hélices, ou seja, era perfeito, e se tornou uma das marcas típicas tanto dos céus do Rio quanto dos ares enevoados de São Paulo.  Para mim é muito difícil escrever sobre o Electra, pois tenho uma ligação afetiva com a aeronave e ainda guardo dentro de mim uma tristeza de nunca poder ter ouvido o ruído daqueles motores, afinal passei minha vida ouvindo meu avô contar histórias sobre a época em que ele ainda trabalhava na manutenção do Electra no Santos Dumont. È triste para mim falar do Electra, mas ao escrever fico feliz pois percebo que estou relembrando a historia do rei da ponte-aérea, e fico feliz, por estar lembrando momentos tão felizes para a historia da VARIG e da aviação comercial brasileira.A historia dos Electras começa cedo, ainda na Geórgia em 1957, nas pranchetas da Lockheed nascia o Electra.A idéia dos engenheiros da Lockheed era um verdadeiro “pau para toda obra” era necessária uma aeronave que combinasse o modernismo dos jatos com a versatilidade das hélices, deveria aterrissar e decolar de pequenos aeroportos, voar longas distâncias quando preciso e ainda precisava ser rápido e espaçoso.Um desafio e tanto, mas eles conseguiram, finalmente, depois de muito esforço  decolou o Electra I, na realidade ele saiu meio troncho e deu alguns vexames, afinal de contas o projeto da aeronave era um desafio, mas o Electra I pouco ficou nos ares, sua fuselagem brigava com o fervor das hélices.Depois de corrigido o problema e resolvida a “pane” , o avião decolou, definitivo para os céus.Apenas 170 foram construídos, desses 170 Electras 15 eram da VARIG.
          No Brasil a historia dos Electras é mais simples, afinal de contas com Ruben Berta no comando tudo parecia funcionar sozinho, ele organizava tudo e dirigia a empresa de uma forma que ninguém nunca viu igual. Em 1961 a pedido de Jânio Quadros a VARIG comprou a Real e com ela vieram grandes dividas e uma frota despadronizada. Primeiro a notícia de que a compra dos Convair 990A não poderia ser desfeita, e para deixar Ruben Berta mais nervoso ele descobre que a Real havia comprado de segunda mão da American Airlines três Lockheed Electra, imediatamente “seu” Berta tenta desfazer a compra ao receber a notícia de que a American Airlines não queria desfazer o negócio ele manda o comandante Omar Fontana, que na época era diretor de operações da Real, viajar imediatamente para os Estados Unidos para desfazer essa compra. O fato é que Ruben Berta considerava os quadrimotor turboélice um “dead duck”(pato morto). Para a sorte de Berta e da VARIG a American Airlines mais uma vez não aceitou desfazer o negócio. Em 1º de setembro foi confirmada a compra do controle acionário da Real pela VARIG e três dias depois chegou ao Brasil o primeiro Lockheed L-188 Electra, era o PP-VJM, dando inicio a sua fama em todo o Brasil e no mundo. A aeronave chegou ao Brasil nas mãos dos comandantes Heinz Plato e Moscoso. O primeiro Electra foi trago da base de manutenção da American Airlines, em Tulsa. Fez escalas em Miami e Belém até tocar em território brasileiro no aeroporto de congonhas em São Paulo, onde foi pintado e preparado para entrar em serviço. Foi em 25 de setembro quando essa aeronave foi usada pela primeira vez em um voo para Nova York. O Electra com seu grande conforto e segurança reforçou ainda mais as rotas internacionais, até então dominadas pelos Caravelle e 707.A rota operada era Rio-Belém-Port of Spain-Santo Domingo-Nova York.Mas em 1963 com a chegada dos Convair os Electras foram retirados desta rota.Um dos primeiros Electras, o VJO  teve a honra de operar o primeiro “Voo da Amizade” em conjunto com a TAP, serviço esse que tinha sido inaugurado pela Panair em 1960, mas como a VARIG assumiu as rotas da Panair um pouco antes, a VARIG assumiu também a parceria com a TAP(Transportes Aéreos Portugueses).Agora os Electras já decolavam do Galeão e prosseguiam para a capital portuguesa fazendo apenas duas escalas em Recife e Ilha do Sal.O curioso deste “Voo da Amizade” é que tanto nos vôos da TAP quanto nos vôos da VARIG as tripulações de cabine eram dividas, sendo metade da VARIG e ,metade da TAP.Outra grande honra do Electra (PP-VJM) foi o translado do corpo do homem que melhor dirigia e mais amava a VARIG.Como já escrevi antes, nunca ouvi alguém dizer que conheceu alguém como Ruben Berta.Quando o presidente da VARIG faleceu em mesa de trabalho no dia 14 de dezembro de 1966.No dia seguinte o corpo de Ruben Berta foi translado do Santos Dumont ao Galeão para depois ser embarcado no 707 onde seguiu até Porto Alegre.Quando a VARIG  já seguia no comando do “seu” Erick os Electras ainda davam apoio aos 707 nas rotas internacionais, mas uma grande honra aconteceu em 25 de junho de 1968, finalmente foi inaugurada uma rota que era da Real.Iniciavam-se naquele dia as rotas para o Japão, e a VARIG finalmente estava dando a volta ao mundo, o maior sonho de Ruben Berta, infelizmente ele já não estava aqui para ver a realização de seu maior sonho.O voo era o RG836 iniciava-se em Congonhas, sabe com que aeronave? Isso mesmo, com o Electra, como sempre dando apoio aos lendários 707 ele partia de Congonhas rumo ao Galeão. Chegando ao Rio os passageiros embarcavam no 707 e com algumas escalas em Lima, Los Angeles e Honolulu a VARIG chegava a Haneda, Tóquio. Pulando para o ano de 1973 encontramos um cenário em que as companhias aéreas precisavam padronizar as aeronaves da ponte-aérea, acontece que a VASP já tinha sofrido dois acidentes com os bimotores japoneses YS-11 “Samurai” e precisava padronizar sua frota. Em função de tais acidentes o governo determinou que apenas quadrimotores poderiam operar na ponte-aérea. A VASP ainda fez alguns vôos com dois Viscount V827. A Sadia(Transbrasil), no entanto tinha apenas os seus Dart Herald que eram bimotores. Essas duas empresas mais a Cruzeiro passaram a arredadas os Electras da VARIG, a tripulação técnica era da Pioneira. Os tripulantes de cabine porem eram das companhias arrendadoras. Naquele momento as aeronaves quase que ignoradas por Ruben Berta começavam sua história na Ponte-Aérea. Uma grande curiosidade é que Vasp e Transbrasil pediram que a VARIG fizesse uma pintura especial  para a ponte-aérea, pois as arrendadoras alegavam que a Pioneira se beneficiava com as logomarcas estampadas nos Electras. Atendendo aos pedidos quatro aeronaves (VJN, VJU, VJW e VLC) tiveram suas logomarcas retiradas, e assim voaram até 1979 quando voltaram a usar com orgulho a “Estrela da VARIG”. Em 1977 o Electra continuava construindo sua carreira na ponte-aérea, neste ano para fazer frente à grande demanda doméstica a VARIG encomendou mais dois Electras(VLX e VLY) já eram 12 aeronaves. Em 1986 chegaram os dois últimos a compor a frota(VNJ e VNK). Neste auge de suas carreiras os Electra chegaram a operar até 88 vôos diários entre Rio e São Paulo. Em todas essas décadas o Electra não sofreu um único acidente grave e foi com certeza uma das aeronaves mais importantes da VARIG, alguns dizem até que o Electra era o amuleto de sorte da Pioneira, e que quando o mesmo foi retirado de operação a sorte da VARIG começou a mudar. Infelizmente estamos chegando na parte mais triste desta postagem, o inicio dos anos 90, mais precisamente em 1991, que foi quando a ponte-aérea começou a perder o glamour. O Electra II finalmente se aposentaria e descansaria depois de muitos anos, de serviço.Hoje com suas asas cansadas e um olhar triste o Electra descansa e observa com tristeza o que aconteceu com a Pioneira.O fim do Electra começa mais precisamente no dia 11 de novembro de 1991, essa é a data em que o programa de substituição dos Electras começou, vagarosamente os reis da ponte-aérea foram sendo recolhidos em congonhas e porto-alegre.O primeiro foi o PP-VNK, saiu de operação ainda em setembro de 1991.Em 5 de janeiro de 1992 coube ao PP-VLX a honra de executar o ultimo voo regular de um Electra na VARIG, o VLX levou com orgulho os últimos passageiros pagantes de um Electra.A VARIG conhecia bem os Electras e sabia da importância deles, e fez questão de combinar com o PP-VJO e com o PP-VJN um ultimo voo de despedida.Foi uma grande festa, mas com sentimento de nostalgia, as redes de TV compareceram, os jornais dedicaram capas, e fotos do Electra estavam estampados em várias capas de revistas, por todo o Brasil.Ao final daquela manhã o VJN fez algumas passagens rasantes após o ultimo voo dos convidados, pousou e foi taxiando para o hangar em Congonhas.Pouco tempo depois o VJO já pousava no Santos Dumont e cortando seus motores encerrou uma era na aviação comercial brasileira e encerrou uma era na VARIG.Hoje tenho orgulho de dizer que meu avô estava naquele VJN no voo de despedida, como meu avô era da manutenção do Electra, um dos mais antigos, ele foi convidado pela VARIG para participar do ultimo voo da aeronave a quem ele havia dedicado toda a sua vida.Ao chegar em Congonhas, ele foi entrevistado por uma equipe da TV Cultura como você podem conferir na reportagem abaixo, meu avô é o “Sr. José Rodrigues” que aparece ainda no inicio do vídeo.Ao chegar em Congonhas e ser entrevistado meu avô conta que voltou de 737 para o Rio e que mesmo assim ele ainda gostava mais dos Electras.Não apenas meu avô mas muita gente que esta na gostaria que o Electra continuasse voando.Alguns deles até disseram frases de amor ao Electra, vale a pena relembrar algumas:

José Victor Olivia: “Foi o avião da minha primeira viagem de avião. Todos temos milhares de historias vividas dentro dele. Gostaria de saber onde vai continuar voando. Quando bater saudade, vou lá”

Abílio Diniz: “Um avião seguro, confortável! Prático: deixava agente no coração do Rio ou de São Paulo, pertinho do centro.”

Jô Soares: “Foi meu grande companheiro de profissão. Começamos juntos. Nunca me deixou na mão. Agora, na troca pelos jatos, saio perdendo. Ganho dez minutos de viagem e perco dez centímetros de espaço”...
Joyce Pascowitch: “Pena que vá sumir, com aquela cara de anos 50!”

Gian Beting: “È como perder um parente!”

Roberto D’Àvila: “Vai ser o nosso tipo inesquecível!”


          E assim termina a historia do Electra, eu nunca tive oportunidade de voar no rei da ponte-aérea, mas fico feliz por estar lembrando toda esse glamour aqui em meu blog. Deixo vocês com as reportagens de despedida do Electra e várias fotos do mesmo.Uma viagem bem nostálgica para todos!









E agora como um Bônus desta postagem, a lista dos passageiros que mais voaram na Ponte-Aérea da época do Electra II.

Um comentário:

  1. Sou o ex-FE Bronaut, voei os Electra durante onze anos, a maior parte na Ponte Aerea Rio-Sao Paulo. Nas chegadas no SDU, muitas vezes fomos recebidos pelo seu avo, um excelente profissional e uma grande pessoa.
    Gostei demais do seu blog, Rodrigo. Um abraco,
    Luiz Alfeu Bronaut

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